LABORATÓRIO DE APRENDIZAGEM: LUGAR DE ESTAR E SER
 

Claírton Elsenbach1
 

“Se eu pudesse...
Dava um globo terrestre a cada criança...
Se possível até um globo luminoso,
Na esperança de alargar ao máximo a visão infantil
E de ir despertando interesse e amor
Por todos os Povos,
Todas as Raças,
Todas as Línguas,
Todas as Religiões!” (F. Abramovich)

 

Resumo

A Proposta Político Pedagógica da Escola Ciclada se organiza em torno da
problemática da exclusão do/a aluno/a da e na escola. E, nesse sentido, o coletivo de
professores/as engaja-se gradativamente na compreensão deste aspecto que a diferencia
enquanto proposta educacional. O espaço do Laboratório de Aprendizagem (LA) surge
como possibilidade de promover a construção subjetiva e cognitiva dos sujeitos com
dificuldades de aprendizagem, com vistas a auxiliá-los a acompanhar o processo ensinoaprendizagem
na turma onde se encontram (Cadernos Pedagógicos nº 9, 1999). O
encaminhamento de um aluno para o LA ocorre após uma avaliação do coletivo de
educadores que interagem com o mesmo revelando o que o/a aluno/a já sabe e as suas
dificuldades cognitivas e sociais. Assim, os/as professores/as do LA, juntamente com
os/as professores/as referências, os/as professores/as itinerantes, os/as professores/as
das áreas da Educação Física, Arte-Educação e Língua Estrangeira, as professoras da
Sala de Integração e Recursos (SIR) e a Equipe Diretiva são os que se responsabilizam
pelo avanço social e cognitivo dos alunos/as.


Palavras Chaves: Laboratório de aprendizagem


CAMINHOS: por onde acontece a ação no LA
 

    Historicamente a educação percorreu vários caminhos, várias concepções e
paradigmas foram definidos e defendidos, entre eles, as abordagens: psicologista
(testagens), biologicista (ENE/exame neurológico evolutivo, desnutrição), culturalista
(pobreza), por exemplo (MOLL, 1996).

    O LA traz uma proposta que busca propor vivências que envolvam a construção
significada baseadas no estímulo, ordenamento, conscientização e aperfeiçoamento do
‘estar/ser’ no mundo da vida, dentro do que Piaget e Vygostky nos apontam com os
paradigmas Psicogenético e Sócio-Cultural, respectivamente.
    A pesquisadora Elvira Lima aponta em suas conferências as funções psicológicas
superiores (percepção/sentidos, imaginação, memória, atenção e pensamento) como
constituintes dos sujeitos na construção de significados e significantes na apreensão e
compreensão do mundo.
    Esta busca pela compreensão e inserção na realidade do ‘mundo da vida’
(Schütz) na Escola Mário Quintana e, em tantas outras da classe popular, nos coloca na
posição de tentarmos dar conta da ‘infância, da adolescência, da juventude não vivida’
(ARROYO,2000) dos alunos (Self made child, Beyer).
    O espaço do LA na escola Mário Quintana está numa caminhada de construção
com o coletivo de professores. Há um diálogo constante para consolidar uma ação em
torno das questões de como melhor aproveitar este espaço de construção do
conhecimento pelos/as aluno/as e pelos/as educadores/as, assim como, da necessidade
de dar conta da formação destes sujeitos na interação e na compreensão do mundo onde
vivem.
    Em uma leitura recente encontro que “a ação educativa se dirige a um ser livre,
histórico e social(...), a educação se situa no terreno da ação, portanto, prática”(VEIT,
1980:193) e, é com esta perspectiva que situamos a ação dos educadores junto a uma
comunidade escolar que busca a vivência da democracia e a construção da cidadania.
    Nesta perspectiva, acredito que uma das profissões mais difíceis de exercermos é
a de educadores, pois esta se choca com a utopia da garantia de aprendizagem para
todos e com a individualidade de cada sujeito que aprende e ensina.
    Quanto às construções sociais e cognitivas, apontamos um dado preocupante na
vida dos alunos: a ‘adultização’ precoce das crianças pelos meios de comunicação e
pelos adultos que com elas convivem. Aspecto que toma relevância ao querermos que os
alunos vivam seus momentos em tempo-espaço propício para um desenvolvimento global
harmônico e feliz, mas sem a perda da imaginação, da curiosidade e do prazer de brincar2
e conhecer o mundo.
    Vemos com grande entusiasmo e relevância a função desse lugar na escola onde
o aluno é valorizado pelo que sabe, descobre que sabe e percebe que pode avançar
através de ações ousadas sobre aspectos organizadores e promotores de um
desenvolvimento pleno, com acesso ao conhecimento, à cultura, que busca fugir de um
‘estreitamento da prática docente’ (ARROYO, 2000) centrada, tão somente, em listagens
de conteúdos.
Assim, o LA busca trabalhar com os seguintes aspectos, enquanto espaço escolar
de ensino-aprendizagem e de ressignificação do mundo dentro e fora da escola:
1. Construindo conceitos (Áreas do Conhecimento);
2. Adquirindo informações (Convenções/Códigos);
3. Desenvolvendo habilidades: ler, falar, escrever, conversar, observar,
descrever, perguntar, pensar, discutir, analisar, imaginar...;
4. Formando atitudes: persistência, respeito, saber ouvir, organização, ...
5. Descobrindo valores: cooperação, amor à natureza, valorização do meio,
consciência crítica do coletivo, solidariedade, ...;
Entre estes aspectos salientamos o gosto de criar, recriar, inventar, ler e
descobrir, na construção do ‘self’ (eu) pelo fato de eu ser em função do outro existir no
constante movimento de preservação das individualidades, nas interações e nas
adequações que ocorrem através da linguagem.
Encontramos em Arroyo(2000) que, devemos trabalhar na perspectiva de que
todos tenham o “direito ao conhecimento, ao saber, à cultura e seus significados, à
memória coletiva, à identidade, ao desenvolvimento pleno como humanos”, pois segue o
autor, “ não nascemos humanos, nos fazemos. Aprendemos a ser no convívio, na relação
com o outro”.
A ‘complexidade’ constitui os sujeitos na sociedade, e este aprender com o outro
faz com que os mesmos não percam as suas características próprias, enquanto sujeitos
únicos, mas aprendam no dinamismo das vivências escolares, deparando-se com a
diversidade, quer seja estatística, estrutural/funcional e ou ‘de tipo ideal’ (AMARAL, 1998).
Daí surgem vários conflitos entre os sujeitos que se vêem cercados por demandas
existenciais envolvendo o afetivo, a emoção, os sentimentos, as diferentes culturas e de
possibilidades de criação e construções ímpares para a melhoria da qualidade de vida
individual e coletiva no mundo dado.
Os/as alunos/as encaminhados/as ao LA são vistos com este olhar na tentativa de
efetivar o sucesso em sua passagem pela escola.

1 Professor da EMEF Mário Quintana
2 Conforme o professor Djalma Oliveira da Silva, o brincar é visto como possibilidade de ajudar “a criança no seu desenvolvimento físico, afetivo, intelectual e social, pois através das atividades lúdicas a criança forma conceitos, relaciona idéias, estabelece relações lógicas, desenvolve a expressão oral e corporal, reforça habilidades sociais, reduz a agressividade, integra-se na sociedade e constrói seu próprio conhecimento” (Oficina: O prazer de Brincar: Uma Pedagogia Poética, 2000).
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMARAL, Ligia A Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas,
preconceitos e sua superação. In.:AQUINO, Julio G. (org) Diferenças e preconceito
na escola. Alternativas Técnicas e Práticas. SP, Summus, 1998.
ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: Imagens e Auto-imagens. RJ, Vozes, 2000.
MOLL, Jaqueline. Alfabetização Possível: Reiventando o Ensinar e o Aprender. Porto
Alegre, Mediação, 1996.
VEIT, Laetus Mário. Análise fenomenológica da idéia de educação. Educação e
Realidade, Porto Alegre, v.5, p173-195, maio/ago., 1980.